Nascido em Salvador, em 1926, Genaro de Carvalho foi pintor, desenhista e o pioneiro da tapeçaria no Brasil. Figura central na renovação das artes visuais baianas, atuou ao lado de Carlos Bastos e Mário Cravo Jr. num momento em que a cidade ainda se encontrava sob domínio do ensino acadêmico. Em 1944, a I Exposição de Arte Moderna realizada em Salvador reuniu obras de artistas como Di Cavalcanti, Segall, Goeldi e Portinari. A mostra teve forte rejeição do público, mas a reação hostil não intimidou os três jovens artistas, que logo a seguir realizaram uma exposição conjunta no Instituto Brasil-Estados Unidos, hoje ACBEU, afirmando sua adesão à modernidade.
Em seguida, Genaro partiu para o Rio de Janeiro, onde estudou com Henrique Cavalleiro. Em 1949, recebeu uma bolsa de estudos do governo francês que o levou a Paris. Lá frequentou os ateliês de André Lhote e Fernand Léger, absorvendo o espírito das vanguardas europeias e experimentando uma liberdade plástica que marcaria decisivamente sua trajetória.
Ao retornar ao Brasil, em 1950, encontrou uma Salvador em ebulição cultural. A Universidade da Bahia florescia sob a liderança visionária do reitor Edgar Santos. Ali lecionavam nomes como Koellreutter, Lina Bo Bardi e Yanka Rudzka. O cabaré Anjo Azul, que também funcionava como galeria, agitava a cena artística, e logo surgiria a Galeria Oxumaré, apresentando artistas modernos de todo o país. Nesse ambiente efervescente, Carlos Bastos, Carybé e o próprio Genaro, reunidos no ateliê-oficina de Mário Cravo Jr., forjavam a nova visualidade baiana. Essa linguagem dialogava com o universo sagrado de Mestre Didi, com as narrativas sensuais de Jorge Amado e com a música de Caymmi, celebrando o poder de Iemanjá, senhora das águas e rainha do mar.
Um marco desse momento foi o monumental painel de 200 metros quadrados realizado por Genaro, aos 24 anos, para o Hotel da Bahia, obra que permanece encantando o público até hoje. No mesmo período, criou o painel O Circo, apresentado na I Bienal de São Paulo, em 1951. Sua vocação muralista chamou a atenção de Jean Lurçat, durante a visita à Bahia, em 1954, descobrindo que Genaro já estava começando a tecer.
Recusando a tapeçaria europeia como modelo, buscou inspiração na técnica das artesãs das redes nordestinas. Em 1955 conheceu a bela Nair que o ajudou no aprimoramento técnico das tapeçarias. Já como sua esposa, em 1957, ela assumiu a administração do ateliê, tornando-se peça fundamental na organização da produção.
De forma inovadora, Genaro tornou-se o pioneiro na integração do têxtil às vanguardas do modernismo brasileiro. A vegetação passou a estruturar sua poética visual: folhas, flores e ramos entrelaçam-se à geometria, criando superfícies rítmicas marcadas por cores vibrantes. A flora, longe de ser mera representação naturalista, assume dimensão arquitetônica, organizando o espaço pictórico e evocando a memória sensorial da paisagem tropical. Em suas mãos, natureza e cultura, tradição artesanal e invenção moderna se fundem num mesmo tecido. Conhecido pela exuberância tropical, Genaro pesquisou também a rascante paisagem da coivara, técnica agrícola de queima da terra, integrando à sua produção galhos negros retorcidos e tons flamejantes - com resultados impactantes.
Ainda em 1955, a Galeria Oxumaré realizou em Salvador uma exposição com suas tapeçarias, desenhos e pinturas. No mesmo ano, a mostra seguiu para a Petite Galerie, no Rio de Janeiro, ampliando a atenção da crítica. Em pouco tempo, Genaro realizou individuais nos principais museus e galerias do Brasil e do exterior, expondo em Zurique, Hamburgo, Buenos Aires, Le Havre, Copenhague, Lisboa e várias cidades dos Estados Unidos. Em 1965, tornou-se o primeiro artista brasileiro convidado a participar da Bienal Internacional de Tapeçaria em Lausanne. Hoje, sua obra volta a ganhar destaque em revisões críticas nacionais e internacionais.
Genaro faleceu, precocemente, em 1971, deixando um legado tecido com ousadia e identidade. Entre o barroco e o moderno, fez da Bahia uma tapeçaria viva, onde cada ponto guarda tradição e invenção.