Na continuidade da comemoração dos 100 anos de Genaro de Carvalho, a Galeria Passado Composto Século XX expande a exposição homônima apresentada no estande da SP-Arte para seu espaço físico permanente, incorporando artistas plásticos e tapeceiros cuja obra se conecta à do artista homenageado.
Os diálogos que se estabelecem aqui, são de diversas ordens, desde o mítico Jean Lurçat, que ainda na década de 1950, reconheceu o talento de Genaro, a artistas coetâneos que compartilharam a magia baiana, como Carlos Bastos, Mário Cravo Jr. e Mirabeau Sampaio, alcançando tapeceiros que seguiram o caminho aberto pelo artista, dando continuidade a seu legado, como Gilda Azevedo, Jean Gillon, Jorge Cravo, Maria Helena Andrés, Rubem Dario e Sylvio Palma - irmanados pelo encanto com a tropicalidade brasileira.
Nascido em Salvador, em 1926, Genaro de Carvalho foi pintor, desenhista e o pioneiro da tapeçaria no Brasil. Figura central na renovação das artes visuais baianas, atuou ao lado de Carlos Bastos e Mário Cravo Jr. num momento em que a cidade ainda se encontrava sob domínio do ensino acadêmico. Juntos realizaram em 1944 uma exposição conjunta no Instituto Brasil-Estados Unidos, hoje ACBEU, afirmando sua adesão à modernidade.
Em seguida, Genaro partiu para o Rio de Janeiro, onde estudou com Henrique Cavalleiro. Em 1949, recebeu uma bolsa de estudos do governo francês que o levou a Paris. Lá frequentou os ateliês de André Lhote e Fernand Léger, absorvendo o espírito das vanguardas europeias e experimentando uma liberdade plástica que marcaria decisivamente sua trajetória.
Ao retornar ao Brasil, em 1950, encontrou uma Salvador em ebulição cultural. Na Universidade da Bahia lecionavam nomes como Koellreutter, Lina Bo Bardi e Yanka Rudzka. O cabaré Anjo Azul, agitava a cena artística, e logo surgiria a Galeria Oxumaré, apresentando artistas modernos de todo o país. Nesse ambiente efervescente, Carlos Bastos, Carybé e o próprio Genaro, reunidos no ateliê-oficina de Mário Cravo Jr., forjaram a nova visualidade baiana.
Um marco desse momento foi o monumental painel de 200 metros quadrados realizado por Genaro, aos 24 anos, para o Hotel da Bahia, obra que permanece encantando o público até hoje. Uma vocação muralista que também encantou Lurçat, durante sua visita à Bahia, em 1954.
Recusando a tapeçaria europeia como modelo, Genaro buscou inspiração na técnica das artesãs das redes nordestinas. Em 1955 conheceu a bela Nair que o ajudou no aprimoramento técnico das tapeçarias. Já como sua esposa, em 1957, ela assumiu a administração do ateliê, tornando-se peça fundamental na organização da produção.
De forma inovadora, Genaro tornou-se o pioneiro na integração do têxtil às vanguardas do modernismo brasileiro. A vegetação passou a estruturar sua poética visual: folhas, flores e ramos entrelaçam-se à geometria, criando superfícies rítmicas marcadas por cores vibrantes. A flora, longe de ser mera representação naturalista, assume dimensão arquitetônica, organizando o espaço pictórico e evocando a memória sensorial da paisagem tropical. Em suas mãos, natureza e cultura, tradição artesanal e invenção moderna se fundem num mesmo tecido. Conhecido pela exuberância tropical, Genaro pesquisou também a rascante paisagem da coivara, técnica agrícola de queima da terra - com resultados impactantes.
Ainda em 1955, a Galeria Oxumaré realizou uma exposição com suas tapeçarias, desenhos e pinturas. No mesmo ano, a mostra seguiu para a Petite Galerie, no Rio de Janeiro, ampliando a atenção da crítica. Em pouco tempo, Genaro realizou individuais nos principais museus e galerias do Brasil e do exterior, expondo em Zurique, Hamburgo, Buenos Aires, Le Havre, Copenhague, Lisboa e várias cidades dos Estados Unidos. Em 1965, tornou-se o primeiro artista brasileiro convidado a participar da Bienal Internacional de Tapeçaria em Lausanne. Hoje, sua obra volta a ganhar destaque em revisões críticas nacionais e internacionais.
Genaro faleceu, precocemente, em 1971, deixando um legado tecido com ousadia e identidade. Entre o barroco e o moderno, fez da Bahia uma tapeçaria viva, onde cada ponto guarda tradição e invenção.